Semana passada um CEO veio conversar comigo. Empresa de 50 milhões de faturamento, 200 funcionários, reconhecimento no mercado.
O cara senta na minha frente e fala: “Lau, eu consigo vender nossa empresa para qualquer investidor em 10 minutos. Mas se alguém me pergunta quem eu sou além do meu cargo… cara, eu travo completamente.”
E aí eu pensei: como é que pode? Esse cara é expert em construir a identidade da empresa dele, articula o posicionamento de mercado como ninguém mas quando o assunto é ele mesmo, dá uma bugada.
Sabe por que isso acontece? Porque é muito mais fácil usar máscara do que mostrar quem você realmente é. Máscaras são cômodas, previsíveis, testadas e aprovadas pelo mercado. Já sua identidade autêntica? Aí é terreno inexplorado, meu caro.
Vamos ser honestos aqui. Suas máscaras profissionais funcionam como scripts que você já decorou. Você sabe exatamente como as pessoas vão reagir quando você usa aquela persona executiva bem ensaiada. É como ter um aplicativo que sempre roda sem dar erro. Três garantias básicas: todo mundo vai “gostar” de você (ou pelo menos aceitar), você vai parecer competente seguindo padrões conhecidos, e não vai ter surpresa desagradável.
Agora, quando você resolve ser autêntico? Aí sim a coisa fica interessante e imprevisível. Algumas pessoas vão se conectar com você de um jeito que nunca aconteceu antes. Outras vão te rejeitar completamente. E isso, meu amigurumi, isso assusta mesmo. Fomos condicionados a acreditar que rejeição é fracasso, quando na verdade rejeição seletiva é o preço da conexão real.
Mas tem uma pegadinha nisso tudo. Sabe aquela sensação de cansaço depois de uma reunião onde você precisou “performar” o dia inteiro? Não é só impressão sua. Manter uma máscara é como rodar um app pesado no seu celular o tempo todo. Consome uma baita energia que você poderia estar usando para coisas mais importantes. E ao longo dos anos, esse gasto de energia se acumula de formas que você nem imagina.
Você acaba tomando decisões que não fazem sentido para quem você realmente é, constrói relacionamentos profissionais superficiais porque ninguém conhece o verdadeiro você, e aí vem aquela sensação estranha: você tem sucesso, mas não sente satisfação nenhuma. Porque o sucesso é da máscara, não seu. É como se você fosse aplaudido por uma performance que não representa quem você é de verdade. Será que a síndrome do importor é o medo disso ou o cansaço disso?
Durante meus anos trabalhando com UX, aprendi que interfaces mal projetadas criam fricção. O usuário até consegue completar a tarefa, mas com muito mais esforço que o necessário. Máscaras profissionais funcionam da mesma forma. Você consegue liderar, vender, apresentar usando uma persona construída, mas a fricção é imensa.
Aqui vai uma coisa que descobri depois de anos trabalhando com muitos e muitos líderes: sua identidade autêntica não é algo que você inventa do zero. É algo que você descobre através de um processo que eu chamo de arqueologia pessoal. É como se você fosse um arqueólogo da sua própria vida. Você não cria o tesouro – você remove cuidadosamente as camadas de terra que estão escondendo ele.
Sua verdade sempre esteve lá, só foi ficando enterrada embaixo de um monte de “deveria ser assim”, “o mercado espera isso”, “profissionais do meu nível fazem assim”. E olha que interessante: sempre que alguém descobre e expressa sua identidade autêntica, ela acaba sendo mais valiosa comercialmente do que qualquer máscara bem construída. Sempre.
Sabe por quê? Porque autenticidade é diferenciação genuína. E diferenciação genuína é valor de mercado real.
Faz um teste mental rápido aqui comigo.
Como você se apresenta numa reunião executiva importante? Agora pensa: como seus amigos mais próximos te descreveriam se alguém perguntasse sobre você? E se você fosse totalmente honesto consigo mesmo, sem filtros sociais ou profissionais, como você se descreveria? A distância entre essas três versões é exatamente o tamanho do seu “gap de autenticidade”. Quanto maior essa distância, mais energia você gasta mantendo versões diferentes de você funcionando ao mesmo tempo.
Relaxa, você não precisa virar uma pessoa completamente diferente da noite para o dia. Autenticidade não é um interruptor que você liga de uma vez. É mais como um dimmer que você vai ajustando devagarzinho, testando até onde consegue ir sem entrar em pânico.
Esta semana, tente uma coisa simples: numa reunião qualquer, compartilhe uma perspectiva que é genuinamente sua – mesmo que seja diferente da opinião geral da sala. Não precisa ser nada revolucionário, só algo que você realmente pensa e normalmente guardaria para si. Fica observando o que acontece. Aposto que você vai se surpreender com a resposta das pessoas.
Outra coisa que funciona: monitore sua energia durante alguns dias. Em que momentos você se sente mais animado, mais no seu elemento, mais “ligado”? Quando você fala sobre o que te interessa de verdade, que expressão as pessoas fazem? Essas são pistas valiosas de quem você realmente é quando não está performando uma versão profissional de si mesmo.
Lembro de um mentorado meu, CTO de uma startup em crescimento. O cara costumava blefar em reuniões técnicas porque achava que admitir que não sabia de algo ia prejudicar a autoridade dele como líder técnico. Vivia com aquela ansiedade constante de ser “descoberto” como alguém que não sabia tudo.
Aí um dia ele resolveu tentar uma abordagem diferente. Começou a falar “olha, isso não é minha área de expertise, mas vou descobrir e volto para vocês” ou “não sei, quem aqui pode nos ajudar com isso?”. Adivinha o que aconteceu? A confiança da equipe nele dobrou. As pessoas começaram a se abrir mais, a trazer problemas antes que virassem crises, a colaborar de forma mais genuína. Vulnerabilidade estratégica não é fraqueza, “bro”. É inteligência emocional na prática.
Aqui vai uma verdade que pode incomodar um pouco: quando você descobre e expressa sua identidade autêntica, você inevitavelmente vai se tornar mais específico. E específico, por definição, exclui algumas pessoas. Isso assusta porque fomos ensinados que exclusão é sempre ruim, que sucesso significa agradar todo mundo.
Mas pensa assim: se você é o líder que integra tecnologia com filosofia, que toma decisões baseadas tanto em dados quanto em intuição, que valoriza tanto eficiência quanto propósito, você não vai atrair todo mundo. Quem busca só expertise técnica pura pode não se interessar. Quem quer apenas racionalidade fria pode se incomodar. Mas para quem valoriza essa combinação única? Você vai ser insubstituível.
“Insubstituível para alguns” vale infinitamente mais que “aceitável para muitos”. É a diferença entre ser uma commodity e ser uma especialidade. E especialidades sempre comandam preços premium.
Todavia, não posso mentir para você: descobrir e expressar sua identidade autêntica é um dos projetos mais desafiadores que existem. Mexe com a base de como você se vê e como o mundo te vê. Questiona anos de condicionamento sobre como “devemos” nos comportar profissionalmente. Mas também é o único projeto que pode te tornar verdadeiramente único no mercado.
A pergunta não é se você tem uma identidade autêntica – todo mundo tem uma. A pergunta é se você vai ter coragem de fazer a arqueologia necessária para descobrir ela e depois a arquitetura necessária para expressar ela de forma consistente e estratégica.
Porque do outro lado do medo da autenticidade está a única vantagem competitiva que ninguém consegue copiar: ser genuinamente você. E pode acreditar, num mundo de máscaras profissionais idênticas, o mercado está desesperado para encontrar pessoas assim.
– Ok Lau. Entendi. Você pode me ajudar?
Ora, ora…https://site.lauyamazaki.work/br/
Nos vemos no próximo artigo.
Siga em frente. Sempre.